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domingo, 21 de fevereiro de 2016

O outro lado do show dos Stones (texto e link para fotos)

A semana do show dos Stones no Rio começou com coragem. A coragem de entrar em contato com Jamari França, crítico de Rock que muito considero, pra ver se ele tinha alguma informação sobre a chegada da banda. "Eles tocam terça no Uruguai. Então, chegam aqui quarta ou quinta", disse. Apostei na quinta. Chegaram na quarta. Eles, de jatinho particular (ou algo do tipo), vindos do Uruguai, desembarcaram na base aérea do Galeão e foram direto pro Copacabana Palace. Eu, vindo de Volta Redonda, pela viação Cidade do Aço, desembarquei na Rodoviária Novo Rio e fui direto pra casa da minha mãe. Quase a mesma coisa.
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Na quinta, fui pra frente do Copacabana Palace. Plantei igual árvore. Nem tanto. Dei uma caminhada pelo local. Ao lado de alguns paparazzi, vi Ron Wood, na sacada do famoso hotel, tirando umas selfies com o atlântico ao fundo. Coisa chata, né?
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Ainda ao lado dos paparazzi, meu celular tocou. Atendi. Câmera na mão esquerda e celular na direita. Enquanto eu falava com minha esposa, Keith Richards apareceu e desapareceu na mesma velocidade. Só deixou a imagem daqueles cabelos brancos com uma faixa preta ao redor impregnada na minha memória. Uma mulher também apareceu. "Deve ser a babá", disseram. "Babá?", pensei. Era Patti Hansen, mulher de Richards. No mais, reportagens com fãs, fotos, amizades e informações sobre a banda pros próximos dias.
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Na sexta, retornei. Plantei de novo igual árvore na frente do Copacabana Palace. Entretanto, a árvore aqui começou a ficar preocupada até as raízes com as nuvens negras que foram tomando conta de Copacabana. Quando a chuva chegou, ainda insisti por algum tempo. Permaneci no lugar protegendo a câmera das gotas que pareciam cair insistentemente nela. Meu esforço foi recompensado. Darryl Jones, baixista dos Stones, apareceu na porta do hotel. Recebeu um pequeno grupo de pessoas (conhecidos dele, provavelmente). Foram todos pra dentro. Eu fui pra marquise mais próxima. Caiu um temporal daqueles. Quando diminuiu, fui embora. Amanhã teria mais. Amanhã teria Maracanã. Amanhã teria show.
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Sábado chegou. Maracanã. 16:30. Um sol pra cada um. Filas e filas e filas. Não eram grandes. Não eram desorganizadas. Mas eram filas. Filas com aqueles currais, sabe?
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Estava cedo. E desce cedo caminhei pelo estádio. Não estar vestido com uma camisa dos Stones e ter a câmera na mão afastaram vendedores e cambistas. Ali era o fotógrafo e não o fã. Na verdade, era os dois.
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Corre-corre daqui, corre-corre dali. Era a repressão policial com os ambulantes. Estranho. Uns podiam, outros tinham que correr. A chuva (sim, choveu e choveu muito!) deu um tempo nos excessos. Muitos dos ambulantes correram pra vender suas mercadorias na saída do metrô (capas de chuva, por exemplo). Todos viram. A polícia viu. Mas chovia, né? Não saíram do lugar.
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Antes da chuva, porém, a banda Beach Combers tocou embaixo da rampa que liga a saída do metrô ao estádio (onde, minutos mais tarde, muita gente, inclusive eu, se protegeria da chuva). Uma galera foi se juntando, curtindo. Um carrinho de golf parou perto de mim. Desce Bernard Fowler, um dos backing vocals dos Stones. Juntou-se aos mortais, sacou o celular do bolso e fotografou o Beach Combers em ação. Retirou-se sem alarde. Tolinho. Eu o reconheci. Avisei a banda quem esteve tirando fotos deles. Ficaram pasmos.
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Peguei meu celular, tirei uma foto do Beach Combers e tuitei o seguinte: "@bernardfowler took some pics of Beach Combers' Band. This one:" e postei a foto. O cara curtiu! Sim, Bernard Fowler curtiu meu tweet! Era ele mesmo!
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Depois do temporal, retornei com minhas caminhadas pelo Maracanã. Já era noite. Reencontrei um rapaz que conheci lá no Copacabana Palace. Puto! Estava indo embora. Pelo que entendi, ele tinha ganhado uma promoção feita pela banda Doctor Pheabes (uma das bandas de abertura). Era um ingresso pro show dos Stones. Pois bem. O ingresso era falso. Coitado. Despediu-se de mim jurando entrar na justiça contra a banda.
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Além dele, revi amigos como o querido casal Alexandre e Mayma e ainda flagrei Gustavo Kuerten perdido, chegando em cima da hora, sem saber por onde entrar.
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Quando o show começou, lá estava eu do lado de fora do estádio. Eu e muitos outros, tão duros quanto. Todos curtindo. "Ladies and gentlemem, The Rolling Stones!" e vem o riff inconfundível de "Start me up".
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"Tumbling Dice", "Angie", "Like a rolling stone", "You got the silver" e tantas outras músicas. Pena que não consegui curtir em paz. Foi só eu ficar parado, cantarolando as canções, que eles começaram a se aproximar. Eles, os cambistas. O primeiro veio. "Ingresso, irmão?". Pensei em dizer algo para o afastar. "Não, só tenho cinquenta reais aqui". Menti. Lembrei que o mais barato, que eu tinha ouvido, estava na casa dos quatrocentos reais. "Pô, eu teria vergonha de falar isso", provocou. Várias respostas me passaram pela cabeça: "Você sabe quantas pessoas adorariam ter cinquenta reais agora?", "Você sabe o que posso fazer com cinquenta reais?" ou "Esse ingresso vai morrer na tua mão e você vai lembrar de mim". Mas dei ao sujeito o que julguei ser a melhor. "Você é o cambista e eu é que tenho que ter vergonha?". Depois dessa, não restou nada pra ele a não ser ir pra longe, bem pra longe.
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Felicidade de pobre dura pouco, eu sei. Ouvindo a curtindo o som claro dos Stones, passei a ser interrompido por pedintes. Era dinheiro pra isso, dinheiro pra aquilo. Eu só não disse que tinha apenas cinquenta reais porque eles poderiam responder: "Pô, eu teria vergonha de falar isso".
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Em "Midnight Rambler", lembrei que a vida, a nossa vida, continua. Peguei o ônibus antes que tocassem "Jumping Jack Flash", "Brown Sugar" e "Gimme Shelter". Senão, eu não responderia por mim.

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Fotos aqui: http://camnamao.blogspot.com.br/2016/02/o-outro-lado-do-show-dos-stonesrj181920.html











Reconhecimento

tem um bando de maluco solto por aí se reconhecendo
eles vestem uns negócios
eles falam uns trecos

quando se cruzam
se olham
como se dissessem

você também!
não finge não!

quando se reúnem
estão todos em casa

você também!
não finge não!

Lição

a santinha deve aprender com a puta
a melhor forma de dar é dando
e não ficar dando desculpa

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Interior

a cidadezinha do interior escreve sua história a lápis
a cidadezinha do interior tem um olho no papel e outro na borracha e outro na porta e outro na janela e outros espalhados
a cidadezinha do interior altera a própria caligrafia no escorregar gélido da mão
a cidadezinha do interior autentica mentiras no cartório viciado onde verdades do passado são retalhadas

a cidadezinha do interior passava a mão nas partes íntimas e cheirava e gostava mesmo com mamãe dizendo que é feio
a cidadezinha do interior se escondia com o primo e um se descobria na novidade do outro
a cidadezinha do interior pegava no piruzinho dos meninos na escola
a cidadezinha do interior jogava o estojo no chão pra ver a calcinha das meninas
a cidadezinha do interior logo aprendeu o porquê de matarmos aula

a cidadezinha do interior cresce sufocada por dentro da calça
a cidadezinha do interior peca no sábado pra ir à igreja no domingo porque vem outro sábado aí
a cidadezinha do interior imagina o que há por baixo da batina do padre e o que acontece na sacristia
a cidadezinha do interior mergulha nua no cálice de vinho das aparências
a cidadezinha do interior quer confessar que não quer confessar

a cidadezinha do interior são os olhares do chefe pra estagiária
a cidadezinha do interior é a ordem da patroa pro adolescente em seu primeiro emprego
a cidadezinha do interior sabe tudo
a cidadezinha do interior não perdoa
a cidadezinha do interior é ou me come ou tá na rua
a cidadezinha do interior é ou dá pra mim ou tá na rua
a cidadezinha do interior trabalha

a cidadezinha do interior forja documentos históricos
a cidadezinha do interior usa peruca e bigode postiço na foto da carteira de identidade
a cidadezinha do interior fala baixinho
a cidadezinha do interior vai pelos cantos
a cidadezinha do interior não faz escândalo
a cidadezinha do interior ganha no sotaque

a cidadezinha do interior é pra quem tem interior
a cidadezinha do interior é grande demais pra tanta pequenez





quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Vinte e Cinco

achava que não passaria dos vinte e cinco
lagartos de Jim Morrison
rasgos de Janis Joplin
cores de Jimi Hendrix
canivetes de Sid Vicious
injeções de Kurt Cobain
copos de Amy Winehouse

aos vinte e cinco me enterrei na Academia
não teve velório
não teve funeral
não teve ressurreição
apenas caixão deslacrado
tumba violada
mausoléu compartilhado

desde os vinte e cinco assombro excomungado
alma penada
espírito fantasmagórico
sentem a presença
percebem o arrepio
deixam as luzes acessas
pedem por companhia

errei na contagem
nas vontades que sinto
nos atos que agem
passei dos vinte e cinco
passei de passagem

vinte e cinco mortes
vinte e cinco vidas
vinte e cinco temperos
vinte e cinco tentativas

vinte e cinco poetas
vinte e cinco poemas
vinte e cinco diários
vinte e cinco dilemas

com vinte e cinco eu tinha vida de indigente
hoje sou quem sou dos vinte e cinco pra frente


sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Placa

ia eu a duzentos por hora
uma placa disse
reduza a verossimilhança
por mais que fosse absurdo
mantive a velocidade
eu em cima do meu burro

ia eu na rapidez da luz
outra placa repetiu
reduza a verossimilhança
por mais que fosse ruim
mantive a velocidade
eu com meu burro em cima de mim

ia eu
quando olharam
já tinha ido
e a terceira placa insistiu
reduza a verossimilhança
por mais que quisesse voltar
mantive a velocidade
eu não saí do lugar

ia eu
até não haver placa
até não haver verossimilhança
até não haver muito a ver
ia eu até
ia eu
e até

Cruzados

a minha e a sua
cruzaram tantas vezes
deu no que tinha que dar

voltemos a conversar
daqui a nove meses