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terça-feira, 23 de agosto de 2011

Muitas cartas em uma

Rio de Janeiro, 29 de junho de 2011


Marcelo, dear


A correspondência que pediu está aqui. Não estranhe. Somos apenas dois (e, ao mesmo tempo, muitos) diante de um espaço/lugar cujos assuntos teóricos abordados envolvem questões literárias, a escrita da intimidade e do sujeito.
Sabe que a carta possui o formato do dia-a-dia e que cada pessoa se coloca de forma diferente no cotidiano. É o que faz o aprendizado nas cartas não ser formal. Porém, elas começam a ganhar importância com os modernistas, ao estabelecerem contatos por esta via, originalizando uma concepção de memória, uma "cumplicidade arquivista [...] maior dos aspectos teóricos e conceituais atinentes [...] à pesquisa da memória cultural e literária, da tradição, do cânone, quer à organização, descrição, referência e preservação dos arquivos" (MARQUES, 2003, p. 141-156). É assim que os bastidores da História são revelados, vindo à tona um lado pouco conhecido daquilo que ficou para a posteridade.
Concordo quando você afirma que a carta de um escritor/poeta, em especial, transforma um problema aparentemente banal em literatura, fazendo dela um espaço discursivo que interessa não só ao remetente e ao destinatário, mas também a todos do meio literário - sempre diz para não confiar em carta de escritor/poeta pelo fato dele usar um espaço supostamente privado para ficcionalizar a intimidade, numa subjetivação do "eu" para cada sujeito remetente, e trazer à tona questões públicas (O que é poesia? O que é literatura?). Confia-se, sim, na figura, no perfil editado por ele. Não é isto?
No exercício da escrita como uma disciplina da escuridão em si, Marcelo, há o processo de autoconhecimento que eleva o escritor/poeta ao lugar de sujeito. Dentro da escrita tradicional, ele pega o que interessa para criar um "eu" para o outro (negociando para cada outro). É neste processo de subjetivação que o sujeito s e conhece: o sujeito se descobre a partir dos fragmentos (os "hupomnêmata" - grande lugar de conhecimento fragmentado, segundo Foucault) do outro, que se descobre a partir dos fragmentos do outro que se descobre a partir dos fragmentos do outro... com o pensamento indo da escrita para o sujeito e não do sujeito para a escrita.
Vi, pelas suas palavras, que a literatura não é só o oficial (o texto publicado). É também o oficioso (o esboço, o manuscrito, etc.). É a trama que importa e não a origem. E a carta, como elemento marginal do discurso, passa a fazer parte dos estudos literários a partir dos anos 60, quando há esta descentralização. O processo de criação e de estilo (considerando a vida do autor, a transformação das suas experiências pessoais em experiências estéticas, a conversão da existência física em poesia, em jogos de construção, mas sem cair no biografismo); a relação de texto (publicado) e protexto (manuscrito) que faz o escritor/poeta trocar esta palavra por aquela; e outros pontos tão relevantes quanto estes citados também passam a ser analisados. Nas cartas trocadas entre escritores/poetas, por exemplo, existe uma via de mão dupla na relação do escritor/poeta considerado mestre com o escritor/poeta que busca uma luz. Quem cresce não é só quem aprende, mas quem ensina também - o que faz com que as posições de correspondente e destinatário se confundam. "O sábio tem igualmente necessidade de manter suas virtudes alerta; assim, estimulando a si mesmo, ele recebe também estímulo de um outro sábio" (FOUCAULT, 1984, p. 155). É o que acontece, Marcelo, quando o poeta Cristóvão Rilke responde à carta do jovem Sr. kappus: Sr. kappus não é o único que aprende com as palavras de Rilke. O próprio também aprende a formalizar, a sistematizar seu pensamento, quando as palavras "têm que significar o que há de mais discreto, de quase indizível" (RILKE, 1984, p. 37). Um "indizível" que ensina a ambos.
Você parece estar próximo quando escrevo esta carta. Uma carta que "é ao mesmo tempo um olhar que se lança sobre o destinatário [...] e uma maneira de se oferecer ao seu olhar através do que é dito sobre si mesmo" (FOUCALT, 1983, p. 156); é um lugar no qual se exercita a solidão de uma escrita que é feita para si mesmo; é ver o outro e ver como o outro nos vê.
A carta dentro do romance também é um espaço particular que pode ter sua confissão subjetivada pelos personagens. Se o gênero romance nasce com Cervantes e seu Dom Quixote, que parodia formas já existentes, Choderlos de Laclos, em As Relações Perigosas, usufrui do romance epistolar (que surge no séc. XVIII dialogando com a pedagogia já estabelecida pelas cartas usadas para educar) para transformá-la em ficcional. O romance de Choderlos, como sabe bem, é híbrido, e seu íntimo, a ideia de confissão, de sinceridade, vira ficção, criando um estilo de escrita, objetivando o que é subjetivo, mostrando como a intimidade pode ser manipulada e se aproximando de uma verossimilhança que atrai a curiosidade do leitor. "'Eu acreditaria', disse ela, depois de ter lido o manuscrito, 'prestar real serviço a minha filha presenteando-a com este livro no dia do seu casamento" (LACLOS, 2008, p. 11). Pode deixar, Marcelo. Não me engano mais. O que parece ser sincero e verdadeiro pode ser "apenas" ficção.
Outro nome de destaque é o nosso dear Silviano Santiago. A saudade de Silviano fica menos intensa ao falar dele. Sua escrita ficcional em primeira pessoa não comunica apenas por comunicar. Necessita de um leitor participativo dentro do contexto do romance moderno. Assim, seu pastiche atinge o público imediatamente - um público feito de semi-afirmações em tempos de reprodução, sem lugar para a origem. "Sou hoje antepassado e prole de mim mesmo. Serei o Adão da bíblia de Marte?" (SANTIAGO, 2005, p. 153). Mande lembranças a Silviano.
Falamos de cartas através de uma. E esta "uma", esta carta que espero que seja lida por ti: a quem ela pertence? A mim, que escrevo estas linhas, que carrego em mim a vontade de enviar-lhe este pedaço de papel? Ou você, o receptor, aquele que despertou este meu desejo de escrever-lhe? E será que as pessoas citadas nesta carta também têm algum direito?
É claro que faço tais indagações já sabendo a sua resposta: Philippe Lejeune. "... a carta é compartilhada. Ela tem vários aspectos: é um objeto (que se troca), um ato (que pode ser publicado)..." (LEJEUNE, 2008, p. 252). Há inúmeros detalhes que escapam da lei, que apenas foca questões mais amplas (fora o fato da correspondência não figurar nos pensamentos mais constantes do legislador). Desta forma, Lejeune resume a carta em três aspectos que você, Marcelo, já conhece, mas que sempre vale a pena repetir: "A partir do momento em que é postada, torna-se fisicamente propriedade do destinatário e quando este morre, de seus herdeiros; mas o exercício de seu direito de propriedade é limitado estritamente pelos dois aspectos seguintes: mesmo postada, a carta continua sendo, intelectual e moralmente, propriedade de seu autor - e, depois de sua morte, de seus herdeiros, que são os únicos que podem autorizar a publicação (conforme a lei de 1957 sobre a propriedade intelectual); mas o exercício desse direito poderá ser limitado, de facto, se o autor não estiver mais com a carta (salvo no caso de uma cópia ter sido conservada) e, de jure, pelo terceiro aspecto: na medida em que uma carta desvela a vida privada, toda pessoa envolvida (o autor, o destinatário ou terceiros) pode se opor à divulgação e à publicação (Código Civil, artigo nove) (LEJEUNE, 2008, p. 253).
Agora preciso anunciar minha despedida. Espero que brevemente possamos conversar mais. Receba esta carta como prova de sua influência. Receba-a, como recebi do destino, com grande felicidade, o presente de trocar palavras contigo, de conhecer-te, e este "conhecer fisicamente [...] foi para um reconhecimento" (ANDRADE, s.d., p. 28). Eu não o conhecia, mas o reconheci.


Um abraço


Dio





BIBLIOGRAFIA

ANDRADE, Mário. Cartas a Manuel Bandeira. Rio de Janeiro. Ediouro, s.d.

FOUCAULT, Michel. A Escrita de Si. In: Ditos e Escritos V - Ética, Sexualidade, Política. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004, p. 144-162.

LACLOS, Choderlos de. As Relações Perigosas. São Paulo. Noca Cultural, 2008.

MARQUES, Reinaldo. O Arquivamento do escritor. In: Souza, Eneida Maria de; Miranda, Wander Mello (org) Arquivos Literários. São Paulo. Ateliê Editorial, 2003, p. 141-156.

PHILIPPE, Lejeune. O Pacto Autobiográfico. Belo Horizonte. EduFMG, 2008.

RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta / A canção de amor e morte do porta-estandarte Cristóvão Rilke. Porto Alegre / Rio de Janeiro. Globo, 1984.

SANTIAGO, Silviano. Histórias Mal Contadas. Rio de Janeiro. Rocco, 2005.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A potencialidade da palavra "solidário" na poesia de Mário de Andrade pela ótica de João Luiz Lafetá

Peço licença aos românticos. É com o devido respeito que desço a escada do tempo, cheio de degraus tortuosos, e volto ao caldeirão do século XIX. Depois de autorizado, ob a revolução de uma aurora burguesa, coloco as mãos no "eu" tatuado na alma a ferro e fogo, descolado do rei, de Deus, independente e sozinho, para trazê-lo a uma atualidade na qual o "eu" é estimulado pelos meios de comunicação de massa e, daqui, deste ambiente enevoado da mais fútil exposição, apontar o binóculo na direção de uma perspectiva modernista.
Esta perspectiva modernista tem nome e sobrenome: Mário de Andrade. E, da mesma forma, o binóculo com o qual olho para este centro difusor de ideias anti-mofo-francês-parnasiano chama-se João Luiz Lafetá. É através da lente de Lafetá que busco atingir a potencialidade da palavra "solidário" na poesia de Mário: "O fato é que, se a poesia de Mário de Andrade constitui uma exploração do seu 'eu' [...], o movimento é simultâneo e solidário" (LAFETÁ, 1986, p. 8).
Lafetá começa apontando para a insuficiência nos estudos da obra de Mário de Andrade por sua complexa diversidade. E, no campo da poesia, as imperfeições são ainda mais sérias com os "eus" da poética em questão. Lafetá expõe as falas de críticos do porte de Luís Costa Lima, Álvaro Lins, Antônio Cândido e Anatol Rosenfeld para chegar a um pensamento próprio sobre a poesia de Mário de Andrade.
Primeiramente, ao avaliar as leituras de Luis Costa Lima e Álvaro Lins, Lafetá nos mostra, nas palavrasdo segundo, "o sentimento da terra e o sentimento íntimo do homem" (LAFETÁ, 1986, p. 4) como as duas forças dominantes na poética de Mário: "Da primeira, nascem os poemas intencionais, estética ou socialmente combativos, que fazem dele a personalidade importante em nossa história literária; da segunda, nascem o poemas líricos, que parecem ao crítico (Álvaro Lins) mais firmemente realizados e são os que lhes agradam por excelência" (LAFETÁ, 1986, p. 4).
Lafetá concorda com a preferência de Álvaro Lins pelos poemas líricos de Mário de Andrade, "nos quais o 'eu' se expande e sujeita o tumulto verbal a uma disciplina interiormente conseguida" (LAFETÁ, 1986, p. 6). Enquanto Luis Costa Lima, ao seguir um rigor ao estilo da antilira de João Cabral de Mello Neto, recusa o "ruim" na obra de Mário (que estaria "nas variações de registro de sua poesia" [LAFETÁ, 1986, p. 3]), Álvaro Lins atribui esta característica a um propósito. Qual seria este propósito?
Antes de aprofundar a discussão, Lafetá, ao analizar os dizeres de Antônio Cândido, percebe que Cândido e Lins concordam em pontos importantes. Cândido esquematiza "os vários aspectos, várias maneiras e vários temas" (CÂNDIDO, 1942, p. 72-78 apud LAFETÁ, 1986, p. 7) da poética de Mário. "Quanto aos vários aspectos, Antônio Cândido assinala os seguintes: o poeta folclórico, no Clã do Jabuti; o poeta do cotidiano, na Paulicéia Desvairada, no Losango Cáqui e em parte do Remate de Males; o poeta de si mesmo, ao lado do qual, e sempre agarrado a ele, está o poeta eu-mais-o-mundo, em Remate de Males, n' A Costela de Grão Cão e no Livro Azul; e, por fim, o criador da Poética. Entre as maneiras, o crítico nota sobretudo três: a maneira de guerra de período inicial do Modernismo; a fase de encantamento rítmico, cheia de virtuosismos saborosos; e a maneira despojada que baixa o tom, esquece o brilho e busca o essencial. Quanto aos temas, a sua variedade escaparia a qualquer enquadramento, ele limita-se a chamar atenção para três ou quatro: o tema Brasil, o tema do conhecimento amoroso (e do amor falhado), o tema do autoconhecimento e da conduta em face do mundo" (LAFETÁ, 1986, p. 7).
Um dos objetivos dessa esquematização de Antônio Cândido, segundo Lafetá, é o de "indicar a riqueza da pesquisa poética de Mário" (LAFETÁ, 1986, p. 7) - o que Lins fizera ao abordar sua pluralidade pelas vias do "sentimento da terra" e do "sentimento íntimo do homem". Porém, Cândido "observa que ao lado do poeta de si mesmo, 'e sempre agarrado a ele, está o poeta eu-mais-o-mundo'" (CANDIDO, 1942, p. 74 apud LAFETÁ, 1986, p. 7). E, assim, vamos além da diversidade da poesia de Mário, que Álvaro Lins indica tão bem, e chegamos a sua unidade. Tanto Cláudio quanto Lins entendem que sua "subjetividade acaba por revelar o mundo de forma mais clara" (LAFETÁ, 1986, p. 8).
A análise feita or Lafetá é justamente o epicentro deste trabalho. A poesia de Mário é um profundo mergulho no "eu" em busca de si que, ao mesmo tempo, sintetiza uma ampla pesquisa das inúmeras faces de uma cultura nacional. Eis o propósito levantado por Álvaro Lin: a pluralidade de temas e técnicas nos registros da poesia subjetiva de Mário está ligada ao encontro que o poeta busca ter consigo e com o Brasil. O "solidário" na poesia de Mário de Andrade está na entrega de uma poética da autodescoberta a favor da construção de uma imagem verdadeiramente brasileira.
No desenrolar da questão, Lafetá não se coloca como aquele que irá "pegar o boi à unha", como ele diz. Prefere "cavar um pouco mais o problema" (LAFETÁ, 1986, p. 9). A pá usada para ir mais fundo atende pelo nome de Anatol Rosenfeld. Através dele, vemos o Mário cabotino - cuja falta da pura autenticidade está atribuída a criação de uma pose, de um disfarce, de uma máscara que se desassocia do "eu" romântico-biográfico por ser milimetricamente construído. É um coração que, como víscera, é "menos sentimento, mais pensamento transtornado, tumultuoso, mais pulsão que sensação" (CHIARA, 2009, p. 41); um autorretrato trabalhado e pensado que procura sua própria sinceridade e, como consequência, a perde, pois "torná-la [...] em princípio importante de um movimento já é sintoma de sua perda" (ROSENFELD, 1969, p. 185).
O caso Mário de Andrade é um exemplo de sacrifício da vida por uma causa que norteou o movimento modernista e abrasileirou a força de um mundo cujo conceito de modernismo era o de ruptura total da vanguarda. Já no Brasil, o diálogo antropofágico com a tradição resultou, com a sua ajuda, no fortalecimento da nacionalização - intenção que se tornou o grande amor de Mário. Exemplos desse amor não faltam: é o homem primitivo e o homem da cidade, juntos, em "O Trovador" ("Sou um tupi tangendo um alaúde!"), a força da língua brasileira em "O Poeta Come Amendoin" ("De palavras incertas num remeleixo melado melancólico"), o reconhecimento no outro pela diferença em "Descobrimento" ("Esse homem é brasileiro que nem eu") e a multiplicidade do "eu" em "Remate de Males" ("Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta"), entre outros.
Sua vocação, sua autoconsciência sobre seu "eu", está confundida com uma consciência social, com uma brasilidade que pode ser identificada em palavras que espelham o Brasil, o cidadão brasileiro. Em "Meditação sobre o Tietê", Mário se mistura a dor do outro que ele fala através da sua confissão e transcende ao fazer do amor uma ponte que o leve ao seu próximo ("Desque me fiz poeta e fui trezentos, eu amei [...] / Quem move meu braço? / Quem beija por minha boca? / Quem sofre e se gasta pelo meu renascido coração? / Quem? Sinão o incêndio nascituro do amor?...").
Após perceber, pelos estudos de João Luiz Lafetá, como e por que se dá a figuração do "eu" na poética de Mário de Andrade, temos a noção da força do termo "solidário" em sua obra poética. Entretanto, o próprio Lafetá limita-se a "apenas" prolongar os estudos sobre Mário (em especial, da sua poesia). E como este trabalho esta calcado em sua análise, no que a sua visão pode proporcionar, a potencialidade anteriormente prometida acaba dando lugar a uma tentativa de chegar o mais perto possível dela, reforçando a polivalência desse poeta arlequinal em prol de um bem maior.




BIBLIOGRAFIA

CHIARA, Ana. Carta aos Analistas: Confissão da Intimidade Impossível. In: Chiara, Ana; Rocha, Fátima Cristina Dias (Org.) Literatura Brasileira em Foco: Escritas da Intimidade. Rio de Janeiro: Casa Doze, 2009, p. 39-50.

LAFETÁ, João Luiz. Figuração da Intimidade. Imagens na Poesia de Mário de Andrade. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

ROSENFELD, Anatol. Mário e o Cabotinismo. In:_________. Texto/Contexto. São Paulo: Perspectiva, 1969.