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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A potencialidade da palavra "solidário" na poesia de Mário de Andrade pela ótica de João Luiz Lafetá

Peço licença aos românticos. É com o devido respeito que desço a escada do tempo, cheio de degraus tortuosos, e volto ao caldeirão do século XIX. Depois de autorizado, ob a revolução de uma aurora burguesa, coloco as mãos no "eu" tatuado na alma a ferro e fogo, descolado do rei, de Deus, independente e sozinho, para trazê-lo a uma atualidade na qual o "eu" é estimulado pelos meios de comunicação de massa e, daqui, deste ambiente enevoado da mais fútil exposição, apontar o binóculo na direção de uma perspectiva modernista.
Esta perspectiva modernista tem nome e sobrenome: Mário de Andrade. E, da mesma forma, o binóculo com o qual olho para este centro difusor de ideias anti-mofo-francês-parnasiano chama-se João Luiz Lafetá. É através da lente de Lafetá que busco atingir a potencialidade da palavra "solidário" na poesia de Mário: "O fato é que, se a poesia de Mário de Andrade constitui uma exploração do seu 'eu' [...], o movimento é simultâneo e solidário" (LAFETÁ, 1986, p. 8).
Lafetá começa apontando para a insuficiência nos estudos da obra de Mário de Andrade por sua complexa diversidade. E, no campo da poesia, as imperfeições são ainda mais sérias com os "eus" da poética em questão. Lafetá expõe as falas de críticos do porte de Luís Costa Lima, Álvaro Lins, Antônio Cândido e Anatol Rosenfeld para chegar a um pensamento próprio sobre a poesia de Mário de Andrade.
Primeiramente, ao avaliar as leituras de Luis Costa Lima e Álvaro Lins, Lafetá nos mostra, nas palavrasdo segundo, "o sentimento da terra e o sentimento íntimo do homem" (LAFETÁ, 1986, p. 4) como as duas forças dominantes na poética de Mário: "Da primeira, nascem os poemas intencionais, estética ou socialmente combativos, que fazem dele a personalidade importante em nossa história literária; da segunda, nascem o poemas líricos, que parecem ao crítico (Álvaro Lins) mais firmemente realizados e são os que lhes agradam por excelência" (LAFETÁ, 1986, p. 4).
Lafetá concorda com a preferência de Álvaro Lins pelos poemas líricos de Mário de Andrade, "nos quais o 'eu' se expande e sujeita o tumulto verbal a uma disciplina interiormente conseguida" (LAFETÁ, 1986, p. 6). Enquanto Luis Costa Lima, ao seguir um rigor ao estilo da antilira de João Cabral de Mello Neto, recusa o "ruim" na obra de Mário (que estaria "nas variações de registro de sua poesia" [LAFETÁ, 1986, p. 3]), Álvaro Lins atribui esta característica a um propósito. Qual seria este propósito?
Antes de aprofundar a discussão, Lafetá, ao analizar os dizeres de Antônio Cândido, percebe que Cândido e Lins concordam em pontos importantes. Cândido esquematiza "os vários aspectos, várias maneiras e vários temas" (CÂNDIDO, 1942, p. 72-78 apud LAFETÁ, 1986, p. 7) da poética de Mário. "Quanto aos vários aspectos, Antônio Cândido assinala os seguintes: o poeta folclórico, no Clã do Jabuti; o poeta do cotidiano, na Paulicéia Desvairada, no Losango Cáqui e em parte do Remate de Males; o poeta de si mesmo, ao lado do qual, e sempre agarrado a ele, está o poeta eu-mais-o-mundo, em Remate de Males, n' A Costela de Grão Cão e no Livro Azul; e, por fim, o criador da Poética. Entre as maneiras, o crítico nota sobretudo três: a maneira de guerra de período inicial do Modernismo; a fase de encantamento rítmico, cheia de virtuosismos saborosos; e a maneira despojada que baixa o tom, esquece o brilho e busca o essencial. Quanto aos temas, a sua variedade escaparia a qualquer enquadramento, ele limita-se a chamar atenção para três ou quatro: o tema Brasil, o tema do conhecimento amoroso (e do amor falhado), o tema do autoconhecimento e da conduta em face do mundo" (LAFETÁ, 1986, p. 7).
Um dos objetivos dessa esquematização de Antônio Cândido, segundo Lafetá, é o de "indicar a riqueza da pesquisa poética de Mário" (LAFETÁ, 1986, p. 7) - o que Lins fizera ao abordar sua pluralidade pelas vias do "sentimento da terra" e do "sentimento íntimo do homem". Porém, Cândido "observa que ao lado do poeta de si mesmo, 'e sempre agarrado a ele, está o poeta eu-mais-o-mundo'" (CANDIDO, 1942, p. 74 apud LAFETÁ, 1986, p. 7). E, assim, vamos além da diversidade da poesia de Mário, que Álvaro Lins indica tão bem, e chegamos a sua unidade. Tanto Cláudio quanto Lins entendem que sua "subjetividade acaba por revelar o mundo de forma mais clara" (LAFETÁ, 1986, p. 8).
A análise feita or Lafetá é justamente o epicentro deste trabalho. A poesia de Mário é um profundo mergulho no "eu" em busca de si que, ao mesmo tempo, sintetiza uma ampla pesquisa das inúmeras faces de uma cultura nacional. Eis o propósito levantado por Álvaro Lin: a pluralidade de temas e técnicas nos registros da poesia subjetiva de Mário está ligada ao encontro que o poeta busca ter consigo e com o Brasil. O "solidário" na poesia de Mário de Andrade está na entrega de uma poética da autodescoberta a favor da construção de uma imagem verdadeiramente brasileira.
No desenrolar da questão, Lafetá não se coloca como aquele que irá "pegar o boi à unha", como ele diz. Prefere "cavar um pouco mais o problema" (LAFETÁ, 1986, p. 9). A pá usada para ir mais fundo atende pelo nome de Anatol Rosenfeld. Através dele, vemos o Mário cabotino - cuja falta da pura autenticidade está atribuída a criação de uma pose, de um disfarce, de uma máscara que se desassocia do "eu" romântico-biográfico por ser milimetricamente construído. É um coração que, como víscera, é "menos sentimento, mais pensamento transtornado, tumultuoso, mais pulsão que sensação" (CHIARA, 2009, p. 41); um autorretrato trabalhado e pensado que procura sua própria sinceridade e, como consequência, a perde, pois "torná-la [...] em princípio importante de um movimento já é sintoma de sua perda" (ROSENFELD, 1969, p. 185).
O caso Mário de Andrade é um exemplo de sacrifício da vida por uma causa que norteou o movimento modernista e abrasileirou a força de um mundo cujo conceito de modernismo era o de ruptura total da vanguarda. Já no Brasil, o diálogo antropofágico com a tradição resultou, com a sua ajuda, no fortalecimento da nacionalização - intenção que se tornou o grande amor de Mário. Exemplos desse amor não faltam: é o homem primitivo e o homem da cidade, juntos, em "O Trovador" ("Sou um tupi tangendo um alaúde!"), a força da língua brasileira em "O Poeta Come Amendoin" ("De palavras incertas num remeleixo melado melancólico"), o reconhecimento no outro pela diferença em "Descobrimento" ("Esse homem é brasileiro que nem eu") e a multiplicidade do "eu" em "Remate de Males" ("Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta"), entre outros.
Sua vocação, sua autoconsciência sobre seu "eu", está confundida com uma consciência social, com uma brasilidade que pode ser identificada em palavras que espelham o Brasil, o cidadão brasileiro. Em "Meditação sobre o Tietê", Mário se mistura a dor do outro que ele fala através da sua confissão e transcende ao fazer do amor uma ponte que o leve ao seu próximo ("Desque me fiz poeta e fui trezentos, eu amei [...] / Quem move meu braço? / Quem beija por minha boca? / Quem sofre e se gasta pelo meu renascido coração? / Quem? Sinão o incêndio nascituro do amor?...").
Após perceber, pelos estudos de João Luiz Lafetá, como e por que se dá a figuração do "eu" na poética de Mário de Andrade, temos a noção da força do termo "solidário" em sua obra poética. Entretanto, o próprio Lafetá limita-se a "apenas" prolongar os estudos sobre Mário (em especial, da sua poesia). E como este trabalho esta calcado em sua análise, no que a sua visão pode proporcionar, a potencialidade anteriormente prometida acaba dando lugar a uma tentativa de chegar o mais perto possível dela, reforçando a polivalência desse poeta arlequinal em prol de um bem maior.




BIBLIOGRAFIA

CHIARA, Ana. Carta aos Analistas: Confissão da Intimidade Impossível. In: Chiara, Ana; Rocha, Fátima Cristina Dias (Org.) Literatura Brasileira em Foco: Escritas da Intimidade. Rio de Janeiro: Casa Doze, 2009, p. 39-50.

LAFETÁ, João Luiz. Figuração da Intimidade. Imagens na Poesia de Mário de Andrade. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

ROSENFELD, Anatol. Mário e o Cabotinismo. In:_________. Texto/Contexto. São Paulo: Perspectiva, 1969.

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