O Barroco, surgido no século XVII, possui um traço estilístico calcado na antítese, numa lógica paradoxal em função de uma tensão, posterior ao Renascimento, entre o antropocentrismo e o teocentrismo. Porém, para entendermos as bases que o sustentam, é necessário voltar ao século XVI, quando a Língua Portuguesa é consolidada mediante uma característica antropocêntrica.
Camões, talvez o maior nome renascentista, é o poeta que transcende a poesia medieval. Enquanto um poeta da Idade Média faz um poema para a sua amada, Camões faz um poema sobre o amor. O Renascimento trabalha o amor dentro de uma cena amorosa, mas o amor enquanto reflexão, atribuindo a sua poesia um caráter filosófico. A partir desta nova abordagem, o amor torna-se uma travessia, algo que não tem um fim em si mesmo. O amor ganha um "status" de revelação (definição utilizada pela Teologia).
Dentro do Barroco, o tema "amor" também é tratado intensamente. Sendo retratado como uma passagem, o amor é considerado sublime por atrair dois valores: o valor sensível e o valor suprasensível. Sob o aspecto sensível, o amor está presente numa relação sujeito-objeto. Enquanto o sujeito e o objeto são finitos, temporais, o amor é eterno. Este paradoxo é uma das facetas que marcam o Barroco. Já a Teologia procura a melhor adequação possível nesta antítese. Enquanto o sujeito é ativo, é aquele que deseja, o objeto é passivo, é aquele que é desejado. Porém, o sujeito é sujeito não somente por este fato e sim por não ter certeza de que é desejado.
Esta problemática é o ponto chave do conceptismo de Padre Antônio Vieira sobre a cura e o remédio do amor barroco. Partindo do conceito de amor, ele estabelece esta antítese barroca. O amor como doença é a noção de paixão. É o sujeito quando se sente passivo do objeto. É o vício, a dependência, a subordinação. Já o amor como remédio é o amor oriundo da noção cristã. Se a doença do amor está presa ao objeto, o amor como remédio está vinculado a uma graça divina, a uma infinitude. E sendo eterno, deve dirigir-se a um objeto igualmente infinito: Deus. Deus é o objeto transcedental que faz o amor ser remédio para todos os males.
No "Sermão do Mandato", de 1643, Padre Antônio Vieira refere-se a quatro remédios eficazes do amor: o tempo, a ausência, a ingratidão e o melhorar do objeto. O tempo "tudo cura, tudo faz esquecer". Entretanto Deus está sempre presente como ser atemporal. A ausência mostra seu poder na cura do amor quando "a mudança de ares faz enfermidades desaparecerem". Entretanto Deus nunca está ausente, ele é onipresente. A ingratidão "converte o amor em aborrecimento". Entretanto Deus é aquele que dá sem pedir em troca. E melhorar o objeto? Este entra na questão do sujeito-objeto anteriormente mencionado. Entretanto, quando se tem Deus como objeto, não há o que querer melhorar. Ele é a prefeição.
quinta-feira, 2 de julho de 2009
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