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quarta-feira, 7 de novembro de 2007

A gosto

Provavelmente o leitor já ouviu dizer que agosto é o mês do desgosto, não é mesmo? Fatos lamentáveis costumam acontecer neste período do ano, fazendo com que cada dia deste mês seja uma apreensão só. Sim, meu caro, também tenho uma ponta de descontentamento por este fatídico mês. Nada contra os que possuem suas razões para comemorar, mas tal desgosto vem da ausência, da falta de dois ícones, dois mitos que, coincidentemente ou não, partiram em um mês de agosto. Gente eternizada em obras que servirão para mostrar aos alienígenas nossa história. Gente que ainda será lembrada por mais uns 300 anos no mínimo, como Mozart e Camões são até hoje. Ok, estamos em setembro. E daí? Agosto ainda não se foi para esta crônica.
Frases como “É um pequeno passo para um homem, mas um salto gigantesco para a humanidade”, “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena” e “O sonho acabou” marcaram época, moldaram o século XX. Mas talvez nenhuma delas tenha sido tão levada a sério, tão repetida a exaustão quanto “Elvis não morreu”. No último dia 16, fez trinta anos de sua morte ou, para os mais fanáticos, fez trinta anos que ele largou a vida artística para viver no Hawaí ensinando caratê. Caso seja verdade, o Elvis de hoje, com 72 anos, poderia estar em qualquer lugar. O fato é que Elvis Aron Presley entrou para a história como o maior representante daquele Rock and Roll puro, simples e devastador, com seu topete, gola alta, costeleta e um jeito provocante de dançar – o que influenciou gerações. Mais uma vez, Graceland recebeu fãs do mundo inteiro. Quem não pôde ir, como eu, homenageou o ídolo ouvindo sua música, cantando um sucesso, arranhando um violão, assistindo um dos seus filmes ou um dos vários artistas-cover que o reverenciam.
Mas a falta não foi apenas do cantor. O dia 17 também mereceu destaque como outro dia recheado de lembranças e recordações. Tudo por causa de um mineiro de Itabira, do Rio, do Brasil, do mundo! Do mundo da poesia.
Vinte anos sem Drummond. Quem diria?! Mas, será mesmo que já estamos há duas décadas sem nada novo do poeta? Pouco importa, pois Drummond é atemporal. Sempre há algo para ser descoberto. Seus textos, crônicas e poemas são tão atuais que tenho a impressão de que a qualquer hora encontrá-lo-ei caminhando calmamente pelas ruas de sua Copacabana e não uma estátua cuja principal função é amenizar a saudade.
Carlos Drummond de Andrade, gauche que exalou confidências e decidiu não ser o poeta de um mundo caduco, escolheu o Rio de Janeiro como sua cidade e transformou Itabira, sua terra natal, em uma fotografia na estante. Poeta-lutador que fez uma flor nascer na rua por ter o sentimento do mundo, mostrou como procurar e não procurar a poesia. Poesia, o que seria de ti sem aquela pedra no meio do caminho, sem o impossível Drummond? A inevitável pergunta viria à tona: e agora, Carlos?
Elvis está em minha coleção de discos de vinil (sim, discos de vinil!) assim como Drummond está em minha “quadrilha” de poetas preferidos. Um acorde ali, um verso aqui, e ambos se encontram e encontram quem os admire mutuamente. Agora sim, o mês de agosto acabou.

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