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quarta-feira, 7 de novembro de 2007

"Nem só de Pan vive o homem".

É com grande prazer que estréio como cronista logo na primeiríssima edição do Jornal com Letras – este suado projeto dos meus amigos de curso – trazendo à tona o Pan-Americano – evento que, juntamente com morros invadidos e escândalos políticos, tem tomado de assalto o noticiário.
Confesso a você, caro leitor, que tenho o hábito, o costume, a mania, o vício de ouvir rádio AM. Não sei se pelo fato de não suportar a programação das FMs ou se porque busco estar sempre bem informado. A questão é que vivo ligado nas notícias que vem e vão, nos debates que abordam temas polêmicos e na nossa paixão nacional: a bunda? A cerveja? Não, o futebol!
Mas o tema desta crônica surgiu mesmo de uma dessas discussões acaloradas que acompanho quase que religiosamente. O assunto era a importância da realização dos Jogos Pan-Americanos no Rio de Janeiro. “Imaginem o quanto o Rio será divulgado! O continente americano e o mundo estarão voltados para nós!”, disse um debatedor. “Haverá uma melhoria no transporte público. Uma nova estrutura será implantada e os cariocas herdarão este presente”, bradou outro. “E um grande investimento na segurança está sendo feito para que possamos ter êxito na realização desta competição. O presidente, o governador, o prefeito e não-sei-mais-quem estão trabalhando para...”, empolgou-se um deles. Ou seja, a maioria defendia esta idéia de que o Pan salvaria o Rio.
De repente, uma alma ali se fez presente. Um espírito iluminado, cuja luz respingou em mim, remou contra a maré. “Realmente, o Rio de Janeiro vai melhorar muito com o Pan, não é? Vai melhorar o transporte, a segurança, a saúde. Só não sei quantos Pan-Americanos precisarão acontecer aqui para que nossa cidade não sofra mais com tanto descaso”. Fez-se o silêncio. “Também não sei quantas Copas do Mundo, quantas Olimpíadas farão nossos governantes lembrarem que há um povo inteiro esperando pela boa vontade deles. Mascaram a cidade varrendo lixo pra debaixo do tapete quando julgam ser necessário. Quando não importa mais, voltam a miséria e a indiferença. Mostram-se participativos na realização do Pan para conseguir votos futuros. ‘No Pan do Rio de Janeiro, fui eu que fiz isso, aquilo e aquilo outro’, dirão. Invetem em transporte, em segurança, mas não investem em educação. Sabem a razão? O resultado demora a aparecer. Eles precisam de algo para agora! 2007! Pan-Americano! O mundo estará nos vendo!!! Como diz um amigo meu:nem só de Pan vive o homem”. Eu me vi naquela voz. Em cada palavra, em cada ironia, em cada revolta, em cada verdade colocada naquele discurso.
Trocadilhos à parte, o amigo tinha (e tem) razão. O Pan irá embora. Tirarão o doce da nossa boca, prezado leitor, e ficaremos a chorar pelo Pan de cada dia entre balas perdidas e políticos reeleitos.

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